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Distração fatal - Especialistas dizem que o gato pula de andares altos por subestimar o perigo
por Marcia Cezimbra


O pulo do gato, do alto dos arranhacéus para a queda perfeita no chão rendeu-lhe a fama de ter sete vidas. Essa condição invejável, de múltiplas vidfas, foi valorizada até pelo rei Roberto Carlos, na canção "Negro Gato". Mas não passa de um mito, segundo especialistas como os veterinários Heloísa Justen, da clínica Gatos e Gatos, e Jorge Pereira. O pulo do gato pode ser magistral, mas, quando ele salta do vigésimo andar, perde sua única vidinha. E não por impulsos suicidas, tampouco por falta de visão de tamanha profundidade. É pura distração, que pode ser fatal. Logo, a verdadeira personalidade felina é melhor descrita na canção "Epitáfio", dos Titãs: "O acaso vai me proteger, enquanto eu andar distraído". Do contrário, é morte certa.

— O gato não é suicida e vê muito bem a profundade das janelas onde costuma passar os dias. O problema é que o gato é extremamente curioso e, na avidez para correr atrás de um passarinho, ele subestima o perigo. Muitas vezes, por distração, ele se desequilibra e cai — explica Heloísa Justem, derrubando a lenda de que os gatos saltam de espigões altos porque estão entediados com a vida e preferem se matar.


Corpo do gato vira pára-quedas durante o salto

A fama felina de suicida não é mera imaginação humana. Heloísa Justen comenta que o American Hospital Center, de Nova York, tem grandes estatísticas de gatos que3, por desequilíbrio ou distração, caem de parapeitos de arranhacéus e morrem. Por que se atirar de tão alto? Será uma pulsão de morte? Estes saltos mortais levaram os cientistas americanos a classificar os traumatismos ocasionados por quedas de espigões de high sindrome disease. São trabalhos sobre os traumas mais comuns, mas nenhum dels, segundo Heloísa, fazem referências a tentativas de suicídio e falta de visão de profundidade. Ou seja: o gato não enxerga mal, nem é suicida em potencial. É apenas um displicente:

— O gato que vive num parapeito um dia se desequilibra e cai — conta Heloísa, que atende a cinco casos de emergência po queda das alturas por mês, a maioria em Copacabana. A solução, segundo ela, é a tela na janela como a dos bebês.

Mas há estatísticas de vitórias impressionantes sobre a morte: quedas de janelas de sete a dez andares, dos quais o gatinho sobrevive com, no máximo, algumas fraturas nas patas e nenhum dano aos orgãos internos. Vem daí, segundo Heloísa, o mito das sete vidas.

Esse é o verdadeiro pulo do gato. Quando cai das alturas, o felino vira seu corpo numa espécie de pára-quedas e estica as quatro patas, prontas para reduzir o impacto da queda. E, enquanto cai, segundo Heloísa, vai urinando, porque seu instinto lhe avisa para relaxar e, ao mesmo tempo, evitar uma ruptura na bexiga, o que provavelmente aconteceria se ela estivesse cheia na hora do choque:

— É por isso que, quando cai de andares baixos, como segundo ou terceiro andares, ele vai ter lesões mais graves. Ele machuca a boca e o nariz, fratura o plato duro, que é o céu da boca. E, se quebrar uma costela, pode ter contusões pulmonares por concentração de ar no tórax. Nas quedas de andares altos, ele pode fraturar as patas, mas não terá lesões internas.

O olftalmologista veterinário Jorge Pereira, presidente da sociedade Latino-americana de Oftalmologia Veterinária, da Associação Brasileira do Mercado Animal e do Colégio Brasileiro de Veterinários Oftalmologistas, destrói outro mito, de que os gatos pulam das alturas porque não enxergam a profundidade. Eles não só têm a visão de profundidade como a dos humanos, mais apurada, segundo Jorge Pereira, devido ao campo de visão bilateral que se sobrepõem. Mas isso não significa que a visão do gato seja ruim.

— Esse mito de que o gato não vê a profundidade vem daí. Nós apenas temos essa visão um pouco melhor. Mas o gato tem uma visão apuradíssima na penumbra e de movimentos muito superior à dos humanos — explica.
Segundo Jorge Pereira, ogato cai porque é distraído e seu dono deve botar telas nas janelas:

— O gato adora janelas e precisa de proteção. Ele gosta de ver a vida passar, como um aposentado que curte o movimento das ruas. Numa dessas, se distrai e cai — explica.

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© 2002 Nina Pombo